Invernia

Concha Rousia 4 de Febreiro de 2012 0

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Pintura de Anna Kostenko, Kiev (Ucrânia)

 

Foi a janela quem me falou de ti
quem me avisou de que entraras de noite
apagando o calor
-
Também é ela quem me mostra as árvores
despidas
prontas para te amar no teu lençol branco
-
Sei que hei de sair a percorrer
as ruas molhadas
que hei de deixar que me abracem
os teus braços de gelo
-
Sei que hei de fazer isso
mas por agora me contento com ficar
detrás da janela
queimando o tempo aqui onde o lume
escutando contos no silêncio do teu ventre
onde tudo adormece
onde tudo é promessa
para o amanhã
para quando a janela me fale das flores
-
Mas ainda há um eco no teu surdo som
que sobrevive à música deste silêncio
um eco que pinta beleza transparente e ingénua
que retém o poder de transformar o mundo
de mil maneiras ainda certas
ainda possíveis
-
Um eco que me chama a sair ao teu encontro
a procurar a entrada ao coração da terra adormecida
um eco que me canta canções que me inundam o espírito
saudoso das suas essências
que me convida a vencer a vergonha
da gélida impotência
a passear sem roupas no meu corpo
baixo das nuvens negras
que me escondem o céu
a sair temerária
a dar o meu calor à solidão da Terra 

Concha Rousia